Estuário ‘filtra’ metais contaminantes na Baixada Santista

COM EXCEÇÃO DE COMPLEXO INDUSTRIAL, REGIÃO TEM NÍVEIS ADEQUADOS DE METAIS NOS SEDIMENTOS

Área de estuário na Baixada Santista. (Reprodução/Jornal da Orla)

Quando começou a analisar amostras de sedimento da Baixada Santista (litoral de São Paulo) para sua tese de mestrado, Bianca Sung Mi Kim levou um susto. No que diz respeito ao nível de metais, a maioria dos grãos coletados nas praias da região, que abriga o maior porto do continente, estava em perfeitas condições.

“Comecei a entrar em pânico, porque o meu trabalho era sobre contaminação, e não estava apresentando contaminação em Santos”, conta à AUN. A pesquisadora do Instituto Oceanográfico (IO), da USP, então, trouxe isso ao seu orientador, Rubens Figueira: “Ele falou, ‘É bom isso, não é? Quer dizer que o mundo está saudável’”, ela lembra, rindo.

O que de início foi desesperador logo serviu para embasar uma nova hipótese: de que a faixa de transição entre rio e mar, conhecida como estuário, atuaria como um “filtro de barro”, barrando os metais — foco da pesquisa de Bianca — de regiões adjacentes, como o canal de Bertioga.

“Eu consegui ver direitinho um degradê: conforme você chegava mais para o oceano, a concentração de contaminantes ia diminuindo.” Assim, a poluição por metais na região, quando existe, está majoritariamente concentrada em hotspots (locais-chave), como o complexo industrial de Cubatão, notório por seus níveis de poluentes.

Isso não quer dizer, no entanto, que a Baixada esteja de todo limpa; ainda há a possibilidade de contaminação por esgoto, poluentes domésticos e industriais e por níveis de orgânicos (como coliformes fecais), que não entraram na pesquisa de Bianca. Especializada em química inorgânica, ela concluiu o mestrado no início deste ano e hoje faz doutorado, também pelo IO.

Trabalho duro

Para chegar a esses resultados, foram quase seis anos de trabalho, iniciado quando a pesquisadora ainda estava na graduação. A partir de 257 amostras de sedimento superficial coletadas pela equipe do LaQIMar (Laboratório de Química Inorgânica Marinha), Bianca determinou os níveis de metais usando reagentes que, ao excitar os elétrons desses elementos, liberaram uma luz correspondente à concentração de metais.

Depois disso, analisou os níveis obtidos a partir de oito índices diferentes. Só a parte estatística demandou seis meses de estudo exclusivo, uma vez que Bianca dispensou a literatura existente para calcular seu próprio background, isto é, o quanto de metais já estava presente no sistema antes da intervenção humana.

Parte central da análise foi dar uma atenção especial aos sedimentos finos, onde os metais tendem a se concentrar. “É comum falarem [em trabalhos] que tal lugar está mais contaminado porque a concentração é maior. Às vezes, a concentração é maior porque o sedimento tem mais finos que os outros, porque na areia normalmente você não encontra metais”, explica. “Então é um parâmetro muito importante para quem estuda contaminação determinar”, conclui a pesquisadora.

Fonte: AUN

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