Aquecimento global empurra corais para ponto de não retorno

Fonte: Pesquisa FAPESP (Youtube)
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(Foto mostra o Professor Miguel Mies do Instituto Oceanográfico da USP durante a entrevista publicada na "Pesquisa FAPESP".)

Abaixo segue a transcrição do vídeo "Aquecimento global empurra corais para ponto de não retorno" publicado no canal Pesquisa FAPESP (Youtube).

Corais tem um aspecto que faz as pessoas confundirem com pedra ou com planta, mas na realidade corais são animais, são seres vivos e eles têm um esqueleto de carbonato de cálcio rígido que faz ele se assemelhar a uma pedra de certo modo. Mas é um animal e um animal que tem uma função fundamental no nosso planeta hoje em dia.

Os corais têm uma importância dupla, uma importância do ponto de vista biológico e uma outra importância do ponto de vista socioeconômico. Vamos começar pelo biológico. Os corais, por que eles têm esse esqueleto rígido? Quando você tem vários corais juntos, você forma um recife de coral. Por que um Recife? Porque é uma barreira rígida, que na verdade é o montão do esqueleto de coral, mas que tá vivo, porque por cima do esqueleto dele tem o tecido dele. Esse recife, essa estrutura é toda tridimensional. Isso favorece com que vários organismos utilizem o Recife como sítio de abrigo, de alimentação, de reprodução.

Desse modo, hoje 32% de toda a vida marinha é encontrada em recife de coral, mas recifes de corais ocupam menos de 1% da superfície do oceano. Então ele suporta, sustenta uma biodiversidade tremenda. Então esse é o valor biológico. Do ponto de vista socioeconômico, temos vários exemplos. Os recifes de corais fornece o que nós chamamos de serviços e são benesses que esse ambiente enquanto vivo, fornece para a humanidade. Por exemplo, pesca, 10% de toda a proteína animal do planeta é oriunda de Recife de coral. Outra coisa é o turismo. Pois, os Recifes têm tanta diversidade, aquela beleza natural. Você tem pessoas que querem lá mergulhar. Isso faz com que se desenvolva pousadas para receber essas pessoas, restaurantes, farmácias. Todo um comércio se desenvolve a partir do turismo dedicado a e conhecer esses organismos.

Além disso, a gente tem a proteção costeira. Os recifes atenuam energia de onda, que impede a erosão da costa, deixa as construções no litoral mais seguras, tem a produção de compostos de valor farmacológico que trata doenças. Inclusive, recifes de corais beneficiam 500 milhões de pessoas ao redor de todo o planeta diretamente e gera uma renda anual de 10 trilhões de dólares. Então não é só a importância biológica, é renda, é comida, é emprego, mas só se o Recife tiver vivo. Se o Recife morre, tudo isso vai embora.

O branqueamento ele não significa que o coral morreu ainda. O branqueamento é um sintoma de que o coral está na UTI. Ele não tá bem, ele tá sofrendo muito, mas ele não morreu ainda. Por quê? Quando o coral tá saudável, ele ainda tá colorido, com o tecido ali recobrindo o esqueleto dele, tá vivo, tá bem. Aí vem o calor, a epiderme dele, a pele, digamos assim, fica transparente, a gente vê o esqueleto por baixo, é o branqueamento. Se esse processo de branqueamento se prolonga, é tamanha o déficit de energia que a ele morre e aí o tecido dele se degrada, apodrece, se desfaz.

O planeta está vivendo esse processo que a gente chama de branqueamento desde a década de 80. Isso já promoveu mais de 50% de mortalidade dos corais do mundo inteiro. Mas o Brasil até 2019 não estava sofrendo grandes consequências. O Brasil é um lugar que estava se mostrando muito mais tolerante ao calor e ao branqueamento do que outras partes do mundo. Porém, as coisas mudaram no ano de 2019. Isso porque a gente teve uma onda de calor inédita na costa brasileira, onde essa onda de calor promoveu um branqueamento inédito ao longo de toda a costa do Brasil. Imortalidade de algumas espécies importantes de coral, como coral de fogo, coral vela, que é uma espécie ameaçada, uma espécie endêmica do Brasil, só existe nossa costa. Então, acendeu uma luz vermelha, uma luz roxa, eu diria já, de que realmente as mudanças climáticas chegaram nos Recifes de Corais do Brasil.

E aí, de fato, infelizmente, em 2024 chegou o segundo grande evento de branqueamento no Brasil. Mas foi um ano que a gente esperava que teríamos problemas com o branqueamento. Por quê? Era um ano de fase quente do El Niño, que gera um aquecimento muito grande ao longo dos oceanos no planeta. E isso culminou no que é chamado de um evento global de branqueamento, que ao invés de afetar uma parte ou outra do planeta, afetou praticamente todos os recifes de todo o planeta.

Se a gente continuar a poluir o planeta e a atmosfera da forma que fazemos hoje, a tendência é que até o fim do século sobem cerca de 5% dos recifes de corais que existiam no início da década de 90. Mas o que que nós podemos fazer hoje? Nós temos três caminhos principais de compreender esse cenário. O primeiro, que eu acho que é particularmente importante, é a gente fortalecer as unidades de conservação no Brasil, os nossos parceiros do ICMB e tudo mais. Os corais que estão dentro de de áreas de proteção estão imunes ao calor? Não. Eles vão sofrer com calor e vão branquear. Mas ao não estarem sofrendo com poluição, turismo desordenado, sobrepesca, eles se mostram mais resistentes e a mortalidade, o branqueamento, a mortalidade tendem a ser menor quando não tem esses outros agressores.

A segunda coisa, que é um assunto muito polêmico, é a história da restauração de corais. Restauração é essencialmente você produzir corais em laboratório, dentre outras técnicas, e depois sair plantando fragmentos de corais no Recife e aí a esperança de reconstruir o Recife. Qual que é o problema disso daí? Primeiro, não tem um único caso de restauração bem-sucedido. Por quê? Porque vem a próxima onda de calor e mata tudo. Então fica um pouquinho naquele enxugar o gelo. A outra coisa é que se restauração, se feita com baixo nível de responsabilidade pode inclusive gerar impactos, introduzir gargalo genético, a alterar o microbioma, introduzir doenças e tudo mais. Então você é contra a restauração, Miguel? Mais ou menos. Eu sou contra vender a restauração com uma solução. Hoje ela não é. A gente precisa de mais pesquisa de base para ver como que talvez a restauração possa ser uma solução.

E a terceira, é a mais importante e a mais desafiadora, eu diria, que é educar o planeta. A gente precisa de políticas públicas em escala global que sejam viáveis e respeitadas por todo mundo em escala global. Porque se a gente tem só uma fração do planeta fazendo o bom trabalho, isso tá longe do seu suficiente. Todo mundo precisa fazer a sua parte. Então, essas políticas públicas, agendas globais, como a da ONA, são fundamentais para frear esse problema. É uma batalha muito difícil que nós temos, mas tem muita coisa bonita pra gente lutar por ainda. Então, acho que a gente tem que nos armar e trazer a população mundial a um exército de pessoas que preza pela conservação desses ambientes tão importantes, mas tão sensíveis, que são os recifes de coral.

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