O oceano do amanhã: o equilíbrio do planeta depende dos mares

Fonte: Estadão (Jornal O Estado de São Paulo)

Coluna - Opinião de 07/05/2026

Colunistas: Luiz Drude de Lacerda e Edmo Campos 


Transcrição da notícia abaixo:

"Em meio à Década da Ciência Oceânica (2021-2030), proclamada pela Organização das Nações Unidas (ONU), a humanidade enfrenta um ponto crítico.

O bem-estar das próximas gerações e a própria integridade do ecossistema terrestre dependem de decisões urgentes sobre como gerimos nossos oceanos.

Atualmente, operamos perigosamente perto de limites que, se ultrapassados, podem comprometer seriamente o futuro do planeta.

Os oceanos cobrem 63% da superfície global e atuam como grandes reguladores do clima e dos ciclos biogeoquímicos. São como um escudo contra o aquecimento global, absorvendo 30% do CO2 emitido por atividades humanas e 90% do excesso de calor gerado.

No entanto, essa proteção tem um alto custo. O aumento da temperatura da água produz alterações nas correntes marinhas, intensificando ondas de calor e provocando a perda de oxigênio e o aumento da acidez.

Sensores instalados em grande profundidade indicam que a circulação de revolvimento meridional do Atlântico, conhecida pela sigla Amoc, está enfraquecendo, com o risco de sofrer uma mudança abrupta. Se atingir o “ponto de não retorno”, as consequências serão severas para o clima do planeta. O Hemisfério Norte ficaria mais frio e o Sul, mais quente, o que impactaria drasticamente a biodiversidade, a agricultura, a saúde e a vida social nessas regiões.

Em decorrência da absorção do excesso de calor, o aquecimento oceânico já causa mortalidade em massa em ecossistemas e fazendas de aquacultura. Recifes de coral sofrem com o branqueamento, sendo substituídos por espécies oportunistas e perdendo sua abundância em áreas rasas. Isso ameaça a segurança alimentar de 40% da população mundial que depende das águas do mar para sobreviver e se sustentar.

O excesso de nutrientes (eutrofização) e o aquecimento global estão criando zonas de baixo oxigênio nos oceanos. Isso altera a distribuição de peixes, como atuns, e modifica toda a cadeia alimentar. Paralelamente, a acidificação — mais severa no Oceano Austral — impacta a base da rede alimentar, afetando a qualidade e quantidade de alimento disponível no mar.

As mudanças climáticas amplificam também a escala da poluição local para níveis globais. Poluentes persistentes, como mercúrio e microplásticos, tornam-se, neste cenário, mais reativos e biodisponíveis, aumentando os riscos de exposição aos humanos.

As ameaças poderiam ser ainda maiores não fosse o avanço significativo que tivemos na administração do leito oceânico, abaixo de 200 metros, vital para o sequestro de carbono e o ciclo de nutrientes. Embora fosse considerado “mar de ninguém”, a entrada em vigor do Tratado de Alto Mar (BBNJ) em janeiro deste ano marca um passo importante sobre a governança global do fundo do mar e de seus grandes atributos de recursos naturais. Contudo, atividades como mineração profunda e exploração de petróleo no leito do mar ainda carecem de avaliações ambientais rigorosas.

Neste contexto, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) colocou o futuro do oceano como tema central da próxima Reunião Magna, que ocorre entre 5 e 7 de maio, no Rio de Janeiro. Cientistas brasileiros e internacionais vão debater os desafios e possíveis soluções.

Os oceanos não são apenas fonte de recursos, fármacos e energia. É o ecossistema que mantém o planeta habitável. Compreender seu funcionamento dinâmico por meio de ciência transdisciplinar e ações multilaterais não é mais uma opção, mas uma necessidade urgente para estabelecer políticas públicas que garantam o nosso amanhã."

Colunistas: Luiz Drude de Lacerda e Edmo Campos. Publicado em: 07/05/2026 às 03h00.

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